Friday, July 02, 2004

Pág. 1 - Vem lá jantar...

7 de Dezembro de 2002

«Vem lá jantar.» insistia a Inês.

«Não!» retorquia eu num tom de voz baixo mas contundente. Sempre preferi respostas lacónicas para evitar insistências, de nada me valeu.

«És um inerte Miguel! Há doentes em coma com uma vida mais emocionante que a tua, até há mortos que são mais sociáveis.» a Inês tinha este talento para pisar as pessoas, para as fazer chorar no dia mais feliz da vida delas. Era um dom. Se o Obelix em pequeno tinha caído num caldeirão de poção mágica que o tornava mais forte, o mesmo deve ter acontecido com a Inês, mas em vez da força (muito mais útil na minha opinião) tinha ganho uma destreza verbal, quase Voodoo, ofendia sempre no momento certo com a intensidade exacta.

«Estás por ventura a insinuar, que os meus avós, que Deus Nosso Senhor tem no céu, estão a praticar sexo tântrico ao som do panasca do António Calvário em versão mix?»
Ela ri-se, nem sei porquê, nunca tive muita imaginação, quem me dera ter caído num caldeirão.

«Miguel, vem lá... vai ser divertido. Aproveitas para conhecer novas pessoas, pode ser que esteja lá uma rapariga gira.» se estes eram os melhores argumentos da Inês, já tinha o meu serão garantido em casa.

«Três coisas: Que mania é essa, típicamente portuguesa, que qualquer convívio tem que ser feito à mesa? De conversar entre uma garfada de Pato à Pequim e outra de Galinha com Amêndoas?» Todos os jantares de grandes grupos são em restaurantes chineses. A Inês interrompe-me.

«Não é num restaurante chinês.» E a piada que tinha sido tão boa. Continuei.

«Segunda: Que mal têm as pessoas que eu já conheço? Por que razão, haveria eu de conhecer pessoas novas? Para deixar de falar às velhas que nunca me desiludiram, como tu por exemplo?... E como se fosse possível conhecer pessoas a partir de um lugar sentado. Para terminar: Desde quando a minha situação de não-comprometido tornou-se mais importante que a tua? E se quissesse raparigas giras, frequentava passagens de modelos.» sou demasiado exigente para me contentar com argumentos tão pouco persuasivos.

«Ok, Miguel! Eu tentei... Escusavas de ter sido tão picuinnhas comigo.» Ela tinha razão, mas decidi não hesitar, estava convicto que não ia.

«Preciso de tomar banho, estou pronto daqui a meia-hora.» Merda! Porque é que nunca digo o que penso. Ela ri-se.

«Esse teu coração fraco de quem não quer magoar ninguém é ainda mais fácil de manipular que um botão de elevador.»

«Despacha-te!» Ela desliga o telefone, faço o mesmo e vou tomar banho.

M.

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