Friday, July 02, 2004

Pág. 5 - Um lugar perto da porta...

7 de Dezembro de 2002

Abro a porta para a Inês entrar, sempre fui muito preocupado com este tipo de cavalheirismo ou mariquices como diz o meu amigo Gonçalo. O silêncio do exterior desaparece por um bom motivo. Deixou-se invadir pela voz etérea do Chet Baker (Come rain or come shine, sei esta música de cor e salteado, mas prometo não a trautear). Apesar da multidão, parece o mercado ao Sábado de manhã, o Sons & Sabores tem de facto, um ar muito agradável e o ambiente musical se continuar assim promete.

A Inês, não partilha a mesma preocupação que eu e abandona-me para ir cumprimentar a Maria.
A Maria é uma relações públicas perfeita, tudo o que são jantares, festas, comícios (ela é uma militante exemplar), etc, até funerais, ela é exímia na sua organização. Sigo a Inês mas num passo menos acelerado. Parece que já todos estão sentados. A mesa é enorme, talvez sejam 20 ou 30 pessoas, contenho-me para não olhar de soslaio, receio encontrar alguém que conheça mas não lhe queira falar.

Cumprimento a Maria e os meus ouvidos são invadidos por sons agudos estridentes e o meu cérebro esmagado com perguntas ridículas.
«O que é que estás aqui a fazer?» Não sei Maria. Estava a caminho de casa quando decidi fazer um desvio de 50 Km só para te dar um tiro, pensei eu.
«Pergunta à Inês.» Respondi com um sorriso muito pouco preceptível.

Depois das trivialidades a Maria afasta-se para procurar dois lugares. A Inês aproveita para me dar um raspanete.

«Às vezes não sei como é que consegues viver contigo? E sei ainda menos, como é possível eu ainda te aturar.»

«Porque no fundo sabes que tenho razão. A diferença está nos tomates. Eu tenho-os, tu não. Eu despejo tudo o que me apetece, tu por inerência das circunstâncias vais guardando.» Que analogia, Freud se fosse vivo abraçava-me.

A Inês segreda-me o que jamais teria coragem de escrever.

A Maria volta e diz-nos que temos dois lugares perto da porta. Sorrio com sinceridade para a Maria e no fundo do coração agradeço-lhe em silêncio, ela ainda não merece mais.

Um lugar perto da porta era tudo o que tinha pedido. É como estar numa prisão e dormir numa cela com a porta aberta. Resta-me esperar para que o resto das cadeiras estejam vazias.

M.

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