Pág.12 - Hey!
A voz do Chet Baker por mais etérea que fosse não conseguia calar os candidatos a feirantes, mas felizmente os minutos já não custavam tanto a passar. A Marta dos óculos cinzentos era muito simpática e a conversa entre nós obrigava a Inês a não implicar comigo.
Mas como o que é bom pouco dura, a nossa conversa é interrompida abruptamente e desta vez o culpado não sou eu.
Alguém que conhece a Marta, interpela-a, ou melhor incomoda-a. Depois da troca de mimos a Marta levantou-se e saiu.
«Vai ter com ela Miguel!» diz a Inês.
«Inês, que ideia mais parva! Pára de beber!» respondi com confiança.
«Tu és mesmo imbecil! Nunca aproveitas o que te passa à frente dos olhos!» insistia a Inês.
«E tu podias aproveitar melhor as tuas cordas vocais em vez de as desperdiçares com disparates. Mal a conheço e vou conforta-la? Mais desesperado que isso só mesmo ir ter com ela e dizer: Eu não sou muito bom com as palavras mas... interessa-te uma noite de muito suor e muito Isostar?» Não sou mesmo nada bom com palavras.
«Miguel poupa-me! Só me falta dizeres que não engraçaste com a Marta?» Acusava a Inês. «Eu conheço-te bem demais!»
«Depois do que aconteceu, a última coisa que ela quer ver são homens, ou restos de um.» Foi o mais sensato que consegui, ou não...
A Inês não respondeu, porque sabia que tinha razão. O silêncio invadiu o pouco espaço que nos separava. A Marta nunca mais chegava e os candidatos a feirantes continuavam a projectar as suas vozes ao mesmo tempo que assassinavam a do Chet Baker.
M.
